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Brasil tem aprovação recorde de agrotóxicos desde o ano 2000
27/12/2021 19:34 em Saúde

O ritmo das liberações dos agrotóxicos no Brasil vem crescendo desde 2017, mas foi em 2021 que elas deram um salto e bateram recorde, chegando a 499 registros – número nunca antes visto desde o início da série histórica no ano 2000. O volume é 523% maior ao daquele ano, quando foram liberados 82 pesticidas.

Tão graves quanto o volume de veneno que o brasileiro está ingerindo são os tipos de pesticidas que voltaram a ser usados no país, segundo o membro da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, Alan Tygel.

“O que a gente percebe em comum a esse ritmo de liberações que estão ocorrendo desde 2019 é que são liberados exatamente os mesmos agrotóxicos que a gente tinha nos anos 70 e 80. Ou seja, hoje, temos exatamente os mesmos agrotóxicos tão tóxicos que tínhamos há 50 anos, como o glifosato, o 24D, a atrazina, entre outros. Além disso, 1/3 dos agrotóxicos que têm sido aprovados aqui é proibido na União Europeia”, observa.

A produção envenenada voltada para exportação resulta diretamente no cenário de inflação dos alimentos, avalia Tygel. “O país que mais produz soja no mundo (Brasil) tem hoje todo mês um aumento no preço do óleo de soja”, relaciona.

A biomédica, toxicologista e membro do grupo temático saúde e ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Karen Friedrich, afirma que as pessoas mais expostas aos agrotóxicos são os trabalhadores da agricultura e suas famílias, porém o relaxamento nas normas para a pulverização aérea vem ampliando esses riscos. “A cada revisão das normas, a distância dentro da qual é permitido o lançamento dessas substâncias tóxicas diminui”, explica.

Diversos estudos já mostram maior incidência de câncer, doenças neurológicas e até casos de nascimento de crianças com malformações. E, passados mais de dois anos da aprovação da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNARA), o PL ainda não foi apreciado pelo plenário da Câmara dos Deputados. 

“Infelizmente o Congresso Nacional tem se mostrado muito cruel para a questão ambiental, sanitária e trabalhista, que deixa trabalhadores, povos e comunidades tradicionais ainda mais alijados de seus direitos e mais vulneráveis, dentre outros fatores ao envenenamento provocado por agrotóxicos”, explica.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento explica, em nota, que “a aprovação confere apenas autorização para a empresa responsável passe a desenvolver estudos que podem ou não levar a um novo agrotóxico”. A pasta destaca ainda que está ocorrendo uma aprovação recorde em bioinsumos. De acordo com a pasta, “enquanto a média mundial é de crescimento em torno de 15%, no Brasil é de 28% nos últimos anos”. “De 2019 para 2020, por exemplo, o número de agrotóxicos aprovados para uso na agricultura orgânica cresceu 200%”, diz o texto.

Falta incentivo à agroecologia

A agroecologia é uma prática secular de produção de alimentos, respeitando a natureza e as características locais de clima, de solo etc. Para o membro da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida Alan Tygel, falta incentivo para pesquisa desse tipo de produção, algo que os agrotóxicos têm desde 1960. “Hoje existe uma carência grande de investimento em assessoria técnica, extensão rural e pesquisa em agroecologia para que esse saberes que já existem e estão bastante consolidados possam, de fato, chegar a todos os agricultores e para que essa produção possa crescer e chegar a mais gente”, afirma.

A biomédica e toxicologista Karen Friedrich também sugere que, diante de um governo federal indiferente, os governos municipais e estaduais atuem no fortalecimento desse tipo de produção. “Os municípios e os Estados podem adotar legislações mais restritivas, proibindo algumas substâncias, garantindo a redução do uso de produtos menos tóxicos e organizando o monitoramento de agrotóxicos em água e alimentos”, diz.

Tygel cita dois bons exemplos mundiais: “Um Estado inteiro na Índia se tornou orgânico, com uma grande produção de chás e especiarias; recentemente, o Sri Lanka decidiu radicalmente cortar importações de agrotóxicos e fertilizantes químicos e fazer uma transição bastante brusca para produção orgânica”. 

 

 

Fonte: https://www.otempo.com.br

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